
Estava um pouco desanimado, ou melhor, desiludido. Mas eu precisava reunir forças para ir a um casamento e celebrar aquela união, celebrar o amor, não o meu, o dos noivos. Antes de partir, borrifei meu perfume pela última vez e olhei para aquela prateleira dupla no meu guarda-roupa, lotada de DVDS e mais DVDS de comédias românticas e filmes de amor que eu coleciono. Ninguém coleciona o que possui, né? Eu coleciono filmes de amor, frases de amor. Olhei para aqueles filmes todos, lembrei de tanta coisa e falei alto comigo mesmo e para eu mesmo ouvir "é, amigo, cadê o seu final feliz? Essas histórias de amor só dão certo no cinema!". Bati a porta na cara dos DVDS, com uma promessa falsa de abandonar todos aqueles filmes.
Mas, como sempre, a vida me daria a resposta certa. Cheguei àquele casamento e não acreditei no que meus ouvidos ouviam: "Someday, when i'm awfully low when the world is cold...". Pensei, não! É perseguição! Essa piscina, essas cadeiras, essas luzes, a música de Tony Bennett, tema de O casamento do meu melhor amigo (1997), "só falta a festa terminar com uma banda tocando 'I say a little prayer for you' e todo mundo dançando!", comentei, comigo mesmo. Ri, abracei aos velhos amigos, todos namorando e eu só, desviando daquela clássica pergunta "e, ai? Tá namorando?". "Ainda não", respondia, com ênfase no ainda. Não sei se era pior os que perguntavam sobre meu atual estado sentimental ou os que nem perguntavam mais [pausa para reflexão].
Primeiro a dama-de-honra, depois o noivo, os padrinhos em seguida, e todo mundo levanta para a noiva entrar. Lá estava ela, Bolinha, minha amiga de infância, linda e radiante como nunca. Bolinha é como eu a chamo. As pessoas que eu amo ganham nomes pelos quais só eu as chamo, sou egoísta e elas precisam de algum modo serem só minhas! Começou o discurso de um líder espiritual e ele foi mesmo sábio em suas palavras: "Um dia todo mundo encontra o verdadeiro amor, é só querer de verdade, sem desculpas, sem medos, sem auto-sabotagens. Todo mundo sabe o caminho. Esse amor será o verdadeiro, pois você vai se lembrar só de como foi o começo, porque nunca vai conhecer o fim". Enguli seco. Ele falou também sobre a importância do amor, mas sobretudo da amizade entre o casal. Novamente, pensei, não! É perseguição MESMO! "Daqui a pouco alguém oferece uma canção romântica para o noivo e diz ser ele o melhor amigo", ironizei.
E disseram, e ofereceram! Mas, dessa vez, exorcizei aquele sentimento frustrante de ouvir Julia Roberts dizer, em uma das cenas mais tristes do cinema: "por sorte, eu acordei e vi que o mundo é como tem que ser" ao dar a canção tema dela e do melhor amigo para "a outra". No mundo real, eu vi a noiva Bolinha, amiga, companheira, amante do noivo, cantar uma música que eu não conheço, mas que era o tema daquele casal real. Era como se todos os filmes de amor, todas as comédias românticas que eu tanto amo, estivessem sendo projetadas ali, naquele sítio, naquela cerimônia, em um amor real, mas com casamento de cinema. Eu chorei! Eu agradeci! Sim, eu ainda choro em casamentos e agradeço por amores que não são o meu.
Olhei para todas aquelas pessoas emocionadas, olhei para mim, também emocionado, e pensei: o que há errado? O que acontece? Por que é assim? Tantas pessoas dizendo que o amor é uma idiotice, que o amor não existe, que casamento é furada, é ultrapassado, dentre outros blá blá blás reclamões, e, ao mesmo tempo, uma sociedade tão solitária como nunca se viu antes. Milhões de pessoas lotando salas de cinema, assistindo histórias de amor e tanta gente só, desiludida, descrente do amor e de si. Mulheres disputando a tapas o buquê da noiva, colocando toda a fé, toda a esperança em algumas flores, acreditando que aquelas rosas poderão torná-las a próxima a ser feliz e amada. Por que todo mundo parece sofrer tanto, desejar tanto o amor e simultaneamente fugir tanto deste sentimento, desta relação?
Mas aquele casal, ali na minha frente, tendo a coragem e a audácia de se declararem amantes e jurarem amor eterno, perante dezenas de pessoas, me ensinou a lição que eu mais precisava no momento e, talvez, na vida. A questão é encontrar alguém que queira realizar o sonho junto com você. Alguém que queira querer. A gente às vezes perde muito tempo amando alguém que não quer viver o nosso sonho e sofremos por tentar encaixar aquele alguém na vida que queremos, mesmo ele não dando a mínima importância para os nossos sonhos. Até onde seu amor é capaz de ir por alguém? Até onde alguém já foi capaz de ir por amar você? "Ele nunca abriu mão de nada. Que tipo de amor é esse?", conclusão de uma esposa em Brothers & Sisters. As coisas podem dar certo, o amor pode dar certo, mas ele vai dar trabalho, você vai dar trabalho, o casal vai ter que ceder.
É triste, é real de mais, mas temos que amar quem queira pagar o preço do nosso sonho, e não pagar o preço para tentar que alguém ame a nós e aos nossos sonhos. Ou, então, é preciso aprender a ceder, fazer pelo outro o que ele está disposto a fazer por você, o que poucos nesse mundo estão dispostos ou são capazes de fazer, apesar de não ser assim tão difícil, é mais uma vez questão de querer. Mas aquele casal de amigos que se amam, aqueles amigos, os meus amigos, quiseram e souberam ceder. Nas palavras improvisadas da noiva ela disse "Eu quero que você me aceite, que nos aceitemos". O noivo não deixou por menos: "Eu quero me tornar alguém melhor, por você". P-U-T-A-Q-U-E-O-P-A-R-I-U! O amor existe!
Antes dos créditos deste casamento cinematográfico e real subirem, um encerramento com chave de ouro: a noiva e o noivo saem do altar, aplaudidos por todos, e a banda começa a cantar "I say a litle prayer for you" levando todos a rir e imitar os passinhos daquele velho filme de Sessão da Tarde. Todo mundo ria, mas eu chorava, eu agradecia. Não era uma perseguição, era um tapa-de-luvas muito bem dado, para eu me lembrar de que preciso sim continuar sempre sonhando, sempre sendo quem eu sou. Só preciso agora de quem queira viver o meu sonho, comigo, por mim, por nós. "Pode beijar o noivo", a noiva, não importa, apenas beije e QUEIRA amar quem você ama (e te ama). Trilha sonora linda, frases de efeito, iluminação precisa, figurino impecável, beijo de tirar o fôlego da platéia, final feliz. Ai, ai, eu também quero a minha própria comédia romântica. E se o amor só der certo no cinema, eu faço meu próprio filme! "Someday..."
Ruleandson do Carmo
É hoje, vou ser madrinha de casamento, e nem vou dizer quem será o padrinho, HEHE!
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